5. COMPORTAMENTO 7.11.12

1. SENHORES DOS TERREIROS
2. O ENEM PASSA NO TESTE?
3. O GOLPISTA DAS FUGAS ESPETACULARES
4. VIOLNCIA FORA DE CONTROLE

1. SENHORES DOS TERREIROS
Por que as religies afro-brasileiras, historicamente chefiadas por mulheres, so lideradas, cada vez mais, por pais de santo
Rodrigo Cardoso

O papel de protagonista do candombl, religio que desembarcou no Brasil  na baiana Salvador, mais especificamente  nos sculos XVIII e XIX, sempre coube  mulher. Por ser cultivada em espaos domsticos, essa crena se tornou um ofcio feminino por uma razo, entre outras, muito simples: como permaneciam em casa enquanto os homens iam buscar fora dela o sustento da famlia, elas tinham mais condies de estabelecer contato com as divindades. Como sacerdotisas, as mulheres davam as cartas nos terreiros. Esse reinado, porm, tem passado para as mos masculinas de forma cada vez mais acelerada. O fenmeno  nacional e, a continuar nesse ritmo, em alguns anos, eles sero os donos do ax at na Bahia, Estado que projetou para todo o Pas a imagem das mes de santo.
 
Na capital da Paraba, por exemplo, um mapeamento dos terreiros realizado pela organizao no governamental Casa de Cultura Il dOsogui revelou que 54% das 111 casas cadastradas na cidade so dirigidas por pais e no mes de santo.
 
Em dez anos, se nada for modificado, s teremos pais de santo em Joo Pessoa, afirma Renato Bonfim, o fundador da ONG. Ele chegou a essa concluso ao analisar os dados sobre a faixa etria dos pesquisados, a pouca iniciao de mulheres na religio e a expectativa de vida do brasileiro. Em outras capitais do Pas, como Belo Horizonte, Belm e Recife, a realidade  semelhante (leia quadro na pg. 68). Em tese de doutorado defendida no ms passado na Universidade Metodista de So Paulo (Umesp), Nilza Menezes, historiadora especializada em cincias da religio, verificou que em Porto Velho, capital de Rondnia, os homens dirigem mais da metade dos templos  e aqueles de maior importncia  de matriz africana. Em quatro anos de pesquisa, ela levantou que 54 dos 106 terreiros existentes na cidade so liderados por pais de santo.

As mulheres, segundo os estudos da pesquisadora, trabalhavam arduamente em atividades tipicamente domsticas e femininas como limpar, cozinhar, lavar, organizar, preparar banhos de ervas, enfim, obrigaes do espao privado. E, depois de longas horas de tarefas braais, ficavam cansadas e perdiam o interesse por atividades pblicas, como jogar bzios e atender pessoas. Esse comportamento, no decorrer do tempo, as afastou de cargos de liderana e as relegou a papis secundrios, resultando em uma espcie de anonimato. Elas vm perdendo o espao pblico de poder, uma funo que as projetavam socialmente, diz Nilza, a autora da tese. As obrigaes nas denominaes de matriz africana so trabalhosas, o que representa um complicador para a mulher moderna que cuida da casa, estuda e trabalha.
 
No catolicismo e entre os evanglicos as mulheres so at hoje subalternas na hierarquia religiosa. A insero delas em posies de liderana, porm,  reivindicao antiga de uma parcela dos fiis e tema que nunca saiu de pauta. J entre as religies de matriz africana, a conformidade das protagonistas de outrora desponta como um fato preocupante, na opinio dos especialistas. H vrias explicaes. Os homens esto mais dedicados do que elas, afirma Sivanilton Encarnao da Mata, o Bab Pec, 48 anos, que h mais de 20 responde pela Casa de Oxumar, um dos templos de candombl mais antigos de Salvador. Este ano, esse babalorix s conseguiu iniciar filho de santo do sexo masculino. Ter mais homens absorvendo o culto dos orixs explica o fato de crescer o nmero de sacerdotes nos terreiros, opina o sacerdote.

SOBERANOS - Bab Pec (primeiro  esq.), da Casa de Oxumar, em Salvador, s iniciou filhos de santo este ano: "Os homens esto mais dedicados do que elas", diz ele
 
Bab Pec  tambm fruto dessa realidade. Ele ascendeu  liderana da Casa de Oxumar, que  tombada pelo Instituto do Patrimnio Artstico e Cultural da Bahia (Ipac), aps trs sacerdotisas terem ditado o ax no local (ler  pgina 67) desde 1927. Por outro lado, pontua a historiadora Nilza, as mulheres ainda somam a maior parte dos fiis das religies afro-brasileiras e so elas que conferem s casas a imagem das baianas que remetem s tradies. Mas, mesmo na Bahia, as mulheres esto em xeque. Acredito que 70% dos espaos de terreiros baianos sejam dirigidos por homens, diz o antroplogo Jlio Braga, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), que prepara o lanamento do livro Candombl  A Cidade das Mulheres, e dos Homens.
 
Mes de santo como Stella de Oxossi e Carmem do Gantois, ambas de Salvador, ainda so mais representativas e tm maior visibilidade poltica do que seus pares do sexo oposto. No entanto, quanto mais afastado da capital for o terreiro, maior ser o nmero de homens no topo da hierarquia, segundo Braga. Babalorix do Il Ax Oy, ele diz que a mdia e os antroplogos tm sido responsveis pela maior visibilidade das mulheres na religio em detrimento dos homens. Qualquer coisa que se faa na Bahia sobre candombl so as mes de santo as requisitadas, afirma. Mas a crescente fora masculina nos terreiros  inegvel. O candomblecista Bonfim, da Casa de Cultura de Joo Pessoa, que  axogun da casa de Me Tuc, aponta para o fato de os homossexuais estarem ocupando, inclusive, o espao das mulheres nos rituais das religies afro-brasileiras. Eles usam paramentos femininos prprios para a proteo dos seios, por exemplo, algo que no deveria ser feito, diz ele.

CULINRIA - Edvaldo Silva vende acaraj como parte do trabalho do terreiro de candombl: antigamente, a atividade cabia apenas s mulheres
 
Bab Pec, da Casa de Oxumar, tem encontrado resistncia das mulheres toda vez que procura fazer com que homens dancem em cerimnias pblicas  um ritual que historicamente  prprio delas. Estou tentando mudar isso aos poucos, afirma. Outras transformaes, porm, j aconteceram. Por exemplo, hoje aqui na Bahia, homens vendem acaraj como parte do trabalho do terreiro. Antigamente, apenas a mulher fazia isso, relata. Criado numa famlia de baianas do acaraj, Edvaldo da Silva, 29 anos, assumiu o lugar da me e da irm na venda da iguaria. H um ano e meio,  ele quem comercializa a comida tpica na porta da Casa de Oxumar. A gente tem de invadir o espao da culinria, j que elas esto cada vez mais presentes na poltica do Pas, diverte-se Silva. Brincadeiras  parte,  preciso evitar que a ascenso masculina relegue a mulher a postos subalternos nos terreiros, o que pode distanci-las de vez do exerccio do poder religioso e deixar apenas na lembrana a imagem de autoridade das mes de santo.


2. O ENEM PASSA NO TESTE? 
s vsperas da prova, o ministro anuncia pacote de segurana para a edio 2012. Um dos pontos aperfeioados foi a expanso do Banco de Itens, que levou a falhas na edio passada
Rachel Costa 

EXPECTATIVA - Em sua quarta edio no formato ampliado, o Enem atraiu 5,7 milhes de estudantes 
 
Desde a transformao do Exame Nacional do Ensino Mdio (Enem) em uma das principais formas de acesso ao ensino superior, em 2009, uma questo de difcil resposta paira sobre o Ministrio da Educao (MEC): como garantir segurana a um exame com mais de 5,7 milhes de inscritos? Cada vez mais cobiado, o Enem  hoje pr-requisito para vrios programas do governo (leia quadro) e mtodo de seleo para 95 instituies de ensino superior, sendo 38 federais. Com um histrico de falhas e fraudes, o governo anunciou na semana passada um pacote de medidas de segurana. As principais so o aumento do Banco Nacional de Itens (espcie de arquivo de questes para a elaborao da prova), o uso de um lacre eletrnico para monitorar o caminho percorrido pelos malotes do exame e novas regras para a correo das redaes, etapa muito contestada na ltima edio. Estou bastante tranquilo e muito otimista. Vamos fazer um excelente Enem, disse o ministro da Educao Alozio Mercadante, que enfrenta seu primeiro exame no comando da pasta. Quanto  segurana, todas as medidas foram reforadas.
 
Com a declarao positiva, Mercadante espera afastar do horizonte o fantasma de sucessivos problemas ocorridos nas ltimas trs edies, que culminaram com a revelao, no ltimo ano, de uma grave falha no exame. Nem havia terminado a aplicao da prova quando um burburinho se formou em torno da semelhana entre seu contedo e o de um simulado distribudo pelo Colgio Christus, de Fortaleza. Com o passar dos dias, a denncia tomou corpo e o MEC confirmou as suspeitas. Havia nove questes iguais, uma semelhante e quatro que, embora com enunciados diferentes, seguiam a mesma linha de raciocnio. Todas elas haviam sido retiradas do pr-teste (uma espcie de testagem da qualidade das questes) aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsvel pela aplicao do teste, no mesmo colgio, no ano anterior. O imbrglio acabou na Justia, com o indiciamento do professor Jahilton Jos Motta, acusado por vazar o contedo, e houve a anulao das 14 questes para os alunos do colgio cearense. Mais do que a possvel m-f do funcionrio, a situao revelou a fragilidade do Banco Nacional de Itens, uma importante fissura no novo sistema de seleo para o ensino superior.
 
INVESTIGAO - Com um funcionrio indiciado pelo vazamento, colgio cearense foi piv de problemas no Enem 2011
 
Se o sistema estivesse benfeito, no haveria fraude porque existe uma autoimunidade garantida pela quantidade de questes que consta no Banco, diz o procurador da Repblica Oscar Costa Filho, responsvel pelo pedido de anulao das perguntas que vazaram. Quanto mais itens, mais difcil coincidir,  como uma loteria, compara.  poca, o estoque era de seis mil perguntas. De acordo com a assessoria de imprensa do MEC, esse nmero subiu para dez mil para esta edio. Para dar segurana, o ideal  que houvesse no mnimo 20 mil questes, diz Tufi Machado Soares, do Centro de Polticas Pblicas e Avaliao da Educao da Universidade Federal de Juiz de Fora. O MEC, porm, considera que a falha de 2011 s ocorreu devido a uma sucesso de trapalhadas que no se repetir.
 
Aumentar o Banco de Itens  o maior desafio para o MEC nos prximos anos. Para os outros obstculos, de resoluo mais simples, o pacote anunciado deve produzir efeito imediato.  o caso das redaes. A forma de correo este ano foi aperfeioada, considera Jos Francisco Soares, do Grupo de Avaliao e Medidas Educacionais da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2011, mais de 120 estudantes reclamaram na Justia por no concordar com suas notas no teste escrito. Tantas reclamaes resultaram em novas regras. Os textos seguiro sendo corrigidos por dois avaliadores. Agora, porm, se a diferena entre as duas notas for superior a 200 pontos (a redao vale de 0 a 1.000), haver uma terceira correo. Se a discrepncia persistir, uma banca com trs avaliadores ser chamada. At o ltimo ano, no existia a banca e s havia a terceira correo em diferenas maiores de 300 pontos. Diante das mudanas, parece que ao menos os erros tm servido de lio.

ESTREIA - Em seu primeiro Enem, Mercadante acredita em prova tranquila nos dias 3 e 4 de novembro


3. O GOLPISTA DAS FUGAS ESPETACULARES
A histria do maior estelionatrio da Repblica Velha, que era uma celebridade retratada em jornais, poesias e crnicas da poca,  resgatada em livro
Joo Loes

 FIM INESPERADO - Afonso Coelho com a famlia: fugitivo da lei, ele terminou morto pela mulher
 
O homem do cavalo branco. O Robin Hood dos sertes. A raposa do tringulo mineiro. O heri das mil notcias. Eram muitos os apelidos de Afonso Coelho, tido como o maior estelionatrio da Repblica Velha, perodo que vai da proclamao da Repblica, em 15 de novembro de 1889, ao golpe de 1930. Nascido em 1875 no atual Mato Grosso do Sul, ele fez fama em todo Brasil e no Exterior dando golpes em comerciantes de grandes cidades, sendo preso em algumas ocasies e protagonizando fugas espetaculares. Na poca, suas histrias encheram pginas de jornais e foram tema de poemas e crnicas de pessoas como Olavo Bilac e Monteiro Lobato. O tempo, porm, se encarregou de apag-lo da memria dos brasileiros. Mas um novo livro, que nasceu por acaso, resgata as peripcias do malandro. Estava levantando a histria da famlia da minha mulher na cidade de Coxim, em Mato Grosso do Sul, quando cruzei com um documento que contava alguns dos casos de Afonso Coelho, diz o autor Ely Paiva. Eram histrias boas demais para ignorar, afirma ele, que  professor de engenharia mecatrnica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, nas horas vagas, historiador e correspondente do Instituto Histrico e Geogrfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS).
 
Talvez uma das melhores histrias recuperadas por Paiva seja a da fuga  foram mais de dez  de Coelho a cavalo em plena praa da Repblica no Rio de Janeiro e que d ttulo  sua obra, batizada de O Homem do Cavalo Branco (Ed. Documenta Histrica, 2012). Rica em detalhes, ela revela a audcia de Coelho e ajuda a construir um retrato da vida no Rio do sculo XIX. O episdio aconteceu numa quarta-feira  tarde, no dia 19 de maio de 1897. Coelho, ento preso no Rio, voltava da Cmara Criminal para a carceragem com escolta de dois policiais depois de participar de uma audincia. Como todos reclamavam de fome, o golpista, que j havia conquistado seus algozes no convvio dirio, fez a sugesto de que todos parassem no Hotel Caboclo para comer. Os policiais, surpreendentemente, concordaram. Depois de muito vinho verde e cerveja, os agentes da lei,  claro, se distraram e perderam o estelionatrio de vista. Pouco depois o golpista surgiu no meio da rua, montado em um cavalo branco em disparada. Ele foi do centro do Rio a Inhama, percorrendo cerca de 12 quilmetros a galope. Foi a fuga mais extraordinria de sua carreira no crime. Nos dias seguintes, fala-se que Coelho voltou ao centro da cidade, disfarado de padre, para ouvir os comentrios sobre ele.

Histrias como essa levantam perguntas importantes, diz Paiva. Que policiais eram esses que param para comer com um homem perigoso como ele?, questiona o autor. Nas pesquisas que fez, Paiva constatou que os policias de ento eram, em sua grande maioria, analfabetos e recebiam salrio quase simblico por seu trabalho. Eles no tinham treinamento para lidar com algum to manipulador como Coelho. So coisas que voc acaba descobrindo por causa da histria da fuga, mas que do uma noo de como era a vida naquela poca, diz. O mesmo aconteceu quando Paiva se debruou sobre detalhes dos golpes que levaram o estelionatrio a ser preso outras nove vezes. Nas suas artimanhas, ele quase sempre se valia da confiana de empresas e comerciantes para roubar. O comrcio no era formalizado como  hoje nem as leis tipificavam crimes de colarinho branco to claramente, diz o pesquisador. Coelho era conhecedor das brechas do rudimentar Cdigo Penal da poca e sabia explor-las. No fim ele ficou com fama, merecida, de um refinado golpista, afirma.
 
Fama que lhe rendeu no s matrias e crnicas na imprensa, mas tambm verses de suas histrias no formato folhetim, que conquistou o Brasil com a popularizao dos jornais dirios. No tardou para que a realidade se confundisse com a fico e muitos de seus golpes ganhassem dimenses gigantescas. Coelho adorava a ateno e ganhou o apelido de O heri das mil notcias nessa poca, quando chegava a mandar notas feitas por ele mesmo aos jornais descrevendo suas peripcias. A polcia, principalmente a do Rio de Janeiro, ficava furiosa. Afinal, em muitas ocasies ela saa humilhada, ora pela incompetncia de seus funcionrios, ora pela astcia do golpista. A busca das autoridades por ele foi implacvel e, mesmo conseguindo fugir, ele sentiu o peso da mo do Estado, pois tinha de mudar de cidade sempre e, a certa altura, chegou a passar pelo Uruguai e a Argentina, onde tambm praticou crimes. A vida particular sofreu, embora ele tenha conseguido se casar duas vezes e ter cinco filhos.

RETRATO - O autor Ely Paiva: trajetria do golpista ajuda a entender o Brasil do final do sculo XIX e incio do sculo XX
 
 complicado estudar uma figura dessas por que, com golpes em muitos lugares e fama, pode ser difcil distinguir entre fato e fico, diz Paiva. Numa forma de se precaver, o autor optou por identificar o livro como um romance reportagem, embora mais de 95%, segundo ele, sejam fatos comprovados por mais de uma fonte da poca. Curiosa foi a morte trgica do gatuno, como os jornais o chamavam. Coelho morreu aos 47 anos, assassinado pela mulher, Silvia Rangel, com quem teve cinco filhos. Ele queria vender propriedades e seguir para o Mxico, onde continuaria sua carreira de golpista. Ela era contra e, numa discusso, atirou nele. Sua morte foi anunciada em quase todos os jornais, como ele certamente gostaria de ter visto.


4. VIOLNCIA FORA DE CONTROLE
Escalada de assassinatos em So Paulo escancara erros da poltica de segurana pblica estadual e mostra que  preciso mudar a abordagem para enfrentar o crime organizado
Flvio Costa e Natlia Martino

 Clima de Pnico - Conflitos de PMs com o crime organizado espalham terror pelas ruas da principal cidade do Pas: 72 mortes em uma semana
 
So Paulo vive h meses uma guerra silenciosa que denota a falncia da poltica de segurana pblica estadual. Policiais Militares so alvejados na porta de casa, chacinas se sucedem, criminosos incendeiam nibus e comerciantes e escolas fecham as portas ao menor rudo sob toque de recolher, numa onda de medo que tomou conta da regio metropolitana da cidade. Na ltima semana, a escalada de violncia atingiu o auge. Em apenas uma semana, entre 25 de outubro e 1 de novembro, 72 pessoas foram assassinadas na Grande So Paulo.  um nmero superior ao da mdia mensal de homicdios que ocorreram entre janeiro e setembro, em Ciudad Juarez, no Mxico, municpio dominado pelo narcotrfico e conhecido como a cidade mais violenta do mundo.
 
Os assassinatos das ltimas semanas seguiram um mrbido padro: um policial  executado e, em seguida, vrios civis so mortos na mesma regio por homens mascarados. No pico de violncia iniciado na quinta-feira 25, o 86  PM assassinado neste ano foi alvejado por dois indivduos de moto, na porta de casa, na Vila Nova Curu, zona leste da capital. Na sequncia, na mesma regio, duas pessoas tambm foram mortas a tiros por homens encapuzados. Considerando-se a dinmica dos crimes, me parece muito plausvel a hiptese de se tratar de assassinatos de policiais cometidos pela faco criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e subsequente retaliao praticada por milcias policiais, avalia a sociloga Camila Dias, pesquisadora associada do Ncleo de Estudos da Violncia (NEV) da Universidade de So Paulo (USP).

MOTIVO - O aumento dos confrontos e da letalidade da polcia pode ter detonado o atual ciclo de retaliaes entre PMs e criminosos
 
Especialistas ouvidos por ISTO elencam diversos erros cometidos pela atual administrao no combate ao crime organizado: a falta de reconhecimento pblico da dimenso e da fora do PCC, o investimento na militarizao das aes de segurana, o esvaziamento das funes da Polcia Civil e o excessivo encarceramento em um sistema prisional dominado pelos criminosos. 

Embora continue a minimizar a fora do crime organizado, o governo estadual esboou uma reao tardia ao ocupar Paraispolis, a maior favela da capital, com 600 homens da PM na semana passada. Em um prdio da comunidade funcionava uma espcie de quartel do PCC, onde foram encontrados documentos que provam a relao do maior grupo criminoso do Pas com as recentes mortes de PMs. As execues foram ordenadas, segundo o secretrio de Segurana Antonio Ferreira Pinto, por Francisco Antonio Cesrio da Silva, o Piau, integrante da faco, acusado de chefiar o crime na favela. Os papis encontrados pela PM durante a ocupao pertencem a membros da quadrilha comandada por Piau. Condenado por crimes como roubo, sequestro, homicdio, receptao e falsidade ideolgica, ele est preso desde agosto em Avar, a 272 quilmetros da capital paulista. 

Entre os documentos revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo, havia cadernos com nomes, endereos, descries fsicas e detalhamento da rotina de mais de 40 policiais militares ao lado de uma carta com ordens para matar dois policiais para cada execuo covarde de um membro do PCC. Esclarecemos que no foi (sic) ns que buscamos esse caminho, ao contrrio, estamos sendo executados na maior covardia na mo da Polcia Militar, da Rota, diz um trecho da carta, fazendo referncia direta ao batalho de elite da PM, Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar. Detalhes de como funcionava o chamado tribunal da faco eram relatados em pginas que incluam os nomes dos responsveis por conduzir os julgamentos, as testemunhas e at as sentenas aplicadas a cada delito.

Diante de tantas mortes e das novas revelaes, no  de surpreender que os prprios PMs estejam assustados. Os ataques em srie fizeram com que parte dos policiais buscasse socorro na religio. A associao PMs de Cristo lanou a campanha Ore por um PM, que consiste em um ciclo de oraes, at o dia 15 de dezembro, contra a morte de colegas. Neste momento em que estamos enfrentando esses sobressaltos  preciso reforar a nossa f em Deus e a unio da corporao, diz o capito Joel Rocha, presidente da entidade.
 
O aumento dos confrontos e da letalidade da polcia pode ter detonado esse ciclo de retaliaes entre PMs e criminosos. O atual secretrio Antonio Ferreira Pinto priorizou as aes de enfrentamento e de policiamento ostensivo da Polcia Militar em detrimento do trabalho investigativo da Polcia Civil. Ocupaes como a de Paraispolis amenizam a situao, mas, depois que a PM sai, o crime volta a imperar.  preciso um trabalho de investigao profundo por parte da Polcia Civil para identificar os chefes e sufocar a rede de financiamento do crime organizado, afirma o delegado George Melo, presidente do sindicato paulista da categoria.

Outra falha remonta ao incio dos anos 2000.  medida que aumentava o encarceramento, o PCC arregimentava novos membros no sistema prisional. Lderes foram espalhados pelas prises do Estado, mas no foram mantidos em isolamento. A partir dos ataques de 2006, a faco, que j era poderosa nos presdios, passou a controlar as atividades ilegais do lado de fora, como trfico de drogas, assaltos e sequestros. O governo cedeu espao ao PCC no sistema penitencirio. H uma espcie de acordo tcito: prendemos os bandidos, mas eles fazem o que querem na cadeia, afirma o ex-subsecretrio nacional de Segurana Pblica Guaracy Mingard, para quem  fundamental isolar as lideranas da faco , restringir, de verdade, o uso de celulares e retomar o controle das penitencirias pelo Estado.

SOCORRO - Alvos, policiais recorreram  religio. A associao PMs de Cristo lanou a campanha Ore por um PM, um ciclo de oraes at o dia 15 de dezembro
 
 preciso mudar a abordagem para vencer o crime organizado em So Paulo. O Rio de Janeiro, cidade que durante dcadas viveu  merc de faces criminosas, s conseguiu recuperar territrios dominados pelos bandidos e reduzir os ndices de violncia quando assumiu que a postura at ento estava equivocada. As autoridades paulistas deveriam aprender com o exemplo carioca e abandonar a ttica do enfrentamento.  necessrio fortalecer a Polcia Civil e investir em inteligncia policial para deixar claro aos criminosos que todos os crimes sero punidos, diz a sociloga Camila, da USP. Outra medida eficiente  secar os lucros na origem e atacar os negcios que permitem a lavagem de dinheiro e, consequentemente, o funcionamento da mquina do crime. A fonte de arrecadao do PCC tem que ser cortada, defende Mingard. No caso do trfico de drogas, deve-se impedir o funcionamento das bocas e prender os chefes dos locais.

Diante de um inimigo comum, em vez de trabalharem em conjunto, autoridades federais e estaduais passaram a semana trocando farpas. O ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, afirmava que tem oferecido ajuda  Secretaria de Segurana Pblica de So Paulo e vagas em presdios federais para isolar os lderes do PCC desde junho. E o secretrio Ferreira Pinto e o governador Alckmin diziam que apresentaram um plano de aes e no obtiveram respostas. No final da semana, eles ensaiaram um entendimento, mas a nica ao concreta foi a ocupao de Paraispolis. A polcia deteve suspeitos, apreendeu armas de fogo, munio e drogas. Especialistas temem, entretanto, que sejam presos apenas peixes pequenos. Se no investirmos em investigao, vamos ter que esperar para ver qual grupo se cansa primeiro de matar e interrompe o ciclo de mata-mata, diz Luciana Guimares, diretora da ONG Sou da Paz.

